... depois do carro imobilizar no separador central respirei fundo e ouvi baterem no vidro a dizerem "não se mexa! está bem? fique quieta, vamos chamar as autoridades." E eu só queria encontrar o meu telemóvel e chamar o meu C para vir ter comigo..."
Saí do carro e olhei à minha volta e a minha primeira preocupação foi ver se não tinha morto ninguém. Fiquei atónita a olhar para as pessoas que me socorreram, sem perceber se lhes tinha batido com o carro, à procura de feridos e a perguntar-me vezes sem conta "e agora, o que é que eu faço?"
"Não bateu em ninguém, fique descansada." Insisti e perguntei quem eram. "Vimos o seu acidente... nem sabemos como está viva..."
Nem eu... parece que despistei-me ao desviar-me de um louco que se queria atirar para cima de mim e andei aos rodopios, a bater entre os rails e o separador central até que o carro parou em contra-mão encostado ao separador central do IC19 no sentido Lisboa - Sintra, mesmo a 5 minutos de casa, tão perto de tudo ter corrido bem... parecia mentira, surreal, daquelas coisas que só acontecem aos outros.
A velocidade dos carros a passarem é assustadora! As buzinas e as reclamações surgem pouco depois "Ponham a merda do triângulo!" Sim, o triângulo, o colete reflector e os papéis do seguro... sim porque no meio disto tudo dizem-me que tenho de chamar a assistência em viagem, mas como se não sei bem onde estou nem como isto me aconteceu e este cheiro a queimado, o que é? "Não se preocupe, não vale a pena ir ver o carro, descanse, encoste-se aí enquanto não vem a ambulância, é só óleo que está a verter."
Eu acordei e vi-me no meio de bombeiros, INEM, polícia municipal, pessoas que vieram socorrer-me, o meu carro destruído, buzinas, luzes e muitas lágrimas...
"Como se chama? Que idade tem? Que dia é hoje? Já avisou a sua família? Tem alguém que a venha buscar?"
M... 32.. 14, 5ª... não sou de cá, não tenho família, só o meu C...
Sobrevivi ao dia 14 de Outubro de 2010 graças ao cinto de segurança e à minha vontade de não querer acertar em ninguém. Espero que haja algo mais neste Universo, porque ainda não percebi como é que sobrevivi sem um único arranhão, a não ser esta dor na alma.